[Verso 1]

Sinto hoje em Satolep

O que há muito não sentia

O limiar da verdade

Roçando na face nua

As coisas não têm segredo

No corredor dessa nossa casa

Onde eu fico só com minha voz

A Dalva e o Kleber na sala

Tomando o mate das sete

A Vó vem vindo da copa

Trazendo queijo em pedaços

Eu liberto nas palavras

Transmuto a minha vida em versos

Da maneira que eu bem quiser

Depois de tanto tempo de estudo

Venho pra cá em busca de mim

Oh, oh


[Verso 2]

E o céu se rirá d'amore

No olho azul de Zenaide

Outrora... lembras flamingos

Jê ne se pá, singulare

Yê na barra uruguaia

E letchussas no Arroito

Marfisas gemerão de paz

No The Lion!

La Jana torpor vadio

Cigarra sem horizonte

Lia, Alice e a lua

Num charque sem preconceito

O cisne negro aprisona

O bélico amor perdido

E a esma num bissaje só

Cativa alguém

Nessa implosão de signos e princípios

Eu guardo o Joca e ele a mim

Oh, oh


[Verso 3]

O teu nome, Ana, escrito

No braço da minha alma

Persiste como uma estrela

Nas horas intermináveis

Chuva, vapor, velocidade

É como o quadro do Turner

Sobre a parede gris da solidão

So-to-me-lo te verás-me

Como-lho-me verte-ás-nos

Solo te quiero dizer-te

Que me sinto mui contento

Porque vou na tua casa

E lemos cousas bonitas juntos

No silêncio eu pego em tua mão

Tu do meu lado e eu no teu quarto quieto

Teu ser se confunde no meu

Oh, oh


[Verso 4]

Vitorino de La Mancha

Minha luta se resume

No compasso de um tango

Na minha triste figura

Meu piano rocinante

A yoga e o chá no fim da tarde

E depois a noite e meu temor

Eu converso com o Kleiton

Na mesa da casa nova

Sobre a vida após a morte

Sobre a morte após a vida

Vencedor é o que se vence

E a falta do Kleber é dura

O que a gente quer é ser feliz

A paz do indivíduo é a paz do mundo

E viva o Rio Grande do Sul!

Oh, oh


[Verso 5]

Só, caminho pelas ruas

Como quem repete um mantra

O vento encharca os olhos

O frio me traz alegria

Faço um filme da cidade

Sob a lente do meu olho verde

Nada escapa da minha visão

Muito antes das charqueadas

Da invasão de Zeca Netto

Eu existo em Satolep

E nela serei pra sempre

O nome de cada pedra

E as luzes perdidas na neblina

Quem viver verá que estou ali