07/06/91

By SUBTIL

On C’Alma

Released on January 15, 2021

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[Letra de "07/06/91"]


[Verso]

7 de Junho de 91, três testemunhas na sala do parto

Pela segunda vez a Mena dá à luz

Segundo filho, outro quarto

Eu perdi o brilho com a idade

Na escola nunca fiz sucesso

Para os mais velhos era um puto mimado

Aos 14 o primeiro processo

Primeira tarde de excessos

O primeiro charro

Na primária já tinha versos, no 6º já tinha catarro

A funcionária não gostava dos blacks

Nem dos brancos que vinham de autocarro

Num sítio onde ciganos são dreads

E todos os dreads bebem do jarro

A vida é vida para além do barro que pisamos

A rua onde nos conhecemos, tem uma Lua que admiramos

E amamos quando menos sabemos

E eu só me entrego a este rap, recarrego energias

Nem sempre foi some e segue

Esquivei a bófia todos os dias

Hoje é diferente mano, consciente mano

Que muitos não têm consciência para entrar no plano

E falo por experiência própria

Auto-suficiência não é cópia do ramo

Cresci a ver o carocho a dar na gringa

A brincar às escondidas, o avô na pinga

Dividi o que tinha e não tinha

Com pessoas que não eram da minha família

Dei love, chorei ódio

Estou feliz, fui eu próprio

Sempre fiz porque quis e nunca quis chegar a casa sóbrio

Sinto um peso nas costas, hoje nem a morte me trava

Eu e ele, bancada de apostas

Mas nem com 100 tropas nas costas se safa

Nem fez mossa, nem deixou marca

A rua é nossa, “sa foda” o autarca

Deram-me uma fossa e eu arranjei o mapa do tesouro da casa de um patriarca

Se eu souber a pass, digo-te

Quase, quase, que foste meu amigo

Tudo é uma fase

Mas a minha frase tem que ter sentido

Tem que ser sentida e eu devia ter ouvido mais a minha mãe

Mas eu assumo as culpas

Fica mal dizer que foi influência de alguém

As minhas lutas são minhas, não costumo fazer mal a ninguém

Sem muito mais espaço para mais entrelinhas

Apago a que vai, escrevo a que vem

Um trevo sem folhas, uma vida sem alma

Nunca fui bom a fazer escolhas

Nem a fazer as coisas com calma

Cada som é um som que emite o que permite abafar a dor

E a dor é um tipo que eu tipo já nem dou valor

Ainda tenho quem me faça acreditar no amor

E eu vou regar essa flor

Ainda me empenho num desenho sem cor

E eu não quero alimentar esse choro

Ainda tenho um longo caminho pela frente

E seja como for

O que tiver que ser será, mas isso sou eu a supor

Sou eu a compor sobre tudo

Quando tudo gira em torno do amor

Mas esse tudo só gira com combustível no motor

Insensível à dor

Ou faço-me de forte, faço-me à sorte

O meu corpo é só um transporte

De uma alma à deriva, o karma da vida

Um caminho para a morte

Um cantinho na morgue todos temos

Um lugar no céu é que eu já não sei

O que eu sei é o que o que todos sabemos

E eu só sei que nada sei

A teu respeito

E eu não tenho direito de julgar ninguém

Por isso respeito quem se dá ao respeito

Dentro e fora do armazém

Dentro e fora eu sou o mesmo, fora e dentro eu fiz o mesmo

Até perceber que eu sou mais do que isto

Basta apenas eu ser mesmo

Basta apenas fugir dos problemas, pensar positivo até obtermos

O querermos da vida não é o contrato em si, são os termos

Não há maçã que não comamos

Não há amanhã se não comermos