Cinzas

By Rokelhe

Released on July 27, 2017

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Sou o meu pior amigo, o meu melhor adversário

Encontrei um inimigo onde havia um aliado

Tenho-me encontrado com um destino proibido

Tento tocar sob o céu mas ele nunca tem descido

Faz sentido as tuas notas em silêncio

Escuta também o que eu penso, que eu dispenso ser punido

Tanto que eu te prometi, quanto nunca vou cumprir

Desculpas atrás de lamentos fazem argumentos rir

Mudam sentimentos que deviam resistir

E o vazio que aumentou não tem como se extinguir

Que a morte seja rápida, que a vida nunca suma

Admiro qualquer dádiva, só nunca vi nenhuma

E quem faz um pé-de-meia p'acabar com o pé na porta

Não lhe safa o pé-de-cabra p'a tirar o pé da urna

Vitaminas já não vêm de alimentos

Pensamentos são feridas sem sacramentos

Aprecias quem iludes por momentos

Ou confias em quem desconfia menos?

Não sou vítima de nada, sou culpado por sonhar

Que um artista nasce livre quando paga p'a criar

Só faço obras-primas p'a quem gosta do grotesco

Nesta casa de burlesco todos pensam em burlar

Enrolo mágoas em papel semi timbrado

Sei quem caminhou nas águas e quase foi afogado

Quem tentou focar em altas para ficar rebaixado

Quem ousou brincar com facas e o arbítrio foi cortado

Detalhes omitidos...

Pela boca morre o peixe, os meus lábios 'tão cozidos

Nunca vais ouvir dizer que tenho muitos entes queridos

A maior parte sumiu, a outra não 'tá entre vivos

E se o Sol amanhã não nascer p'ra mim

Diz à minha irmã que ela é tudo p'ra mim

Diz à minha mamã que é tudo p'ra mim

Talvez eu tenha um bom fim se esta vida der p'o torto

Mas se eu tiver de descer, então isto é que era o topo?

Podem queimar o meu corpo...

Espalhem as cinzas pelas ruas do Porto!

«Não durmo, nem espero dormir

Nem na morte espero dormir

Espera-me uma insónia da largura dos astros

E um bocejo inútil do comprimento do mundo

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite

Não posso escrever quando acordo de noite

Não posso pensar quando acordo de noite

Meu Deus, não posso sonhar quando acordo de noite!»


["Insónia" de Álvaro de Campos, por Ode]