Tenho tanto a dizer

Tantos sítios para estar

Mil frutos a colher

Dos projetos vou lançar

Vai ser tão bom

Pego no papel e desfaço-o

Cerro os maxilares como aço

E lembro-me da nova série que sou fã

Enrolo o meu ócio no divã

Esqueço as minhas resoluções de ano novo

Abdico dos ideais para revolucionar o meu povo

E assumo-me como sou: um estorvo

É assim que estou bem

A deixar para amanhã

O que posso fazer hoje

O que posso fazer nunca

O que posso fazer contra mim

Aspiro a ser grande, enfio-me no bolso

Planeio dеixar obra, não começo o esboço

Invento tеorias que não sei concretizar

Sonho com a fama e novas formas de amar

Mas estou tão esgotado que só me deixo ficar

Preencho o vazio com comiseração

Corro quilómetros sem tirar os pés do chão

Tenho tanto a dizer

Tantos sítios para estar

Mil frutos a colher

Dos projetos vou lançar

Vai ser tão bom

(Assumo a posição)

É desta que crio a minha obra-prima

E agora que orgulho a quem me tem estima

Depressa me esqueço da ideia original

Contemplo o fiasco do meu esforço banal

E canto para o nada que em mim se instalou

Se alguém bater à porta, diz que não estou

É assim que estou bem

A deixar para amanhã

O que posso fazer hoje

O que posso fazer nunca

O que posso fazer contra mim

É assim que estou bem

A deixar para amanhã

O que posso fazer hoje

O que posso fazer nunca

O que posso fazer contra mim

(É assim que estou bem

É assim que estou bem

É assim

Que estou bem)