Released on March 4, 2022

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[Letra de "Lar"]


[Verso 1]

Éramos putos, apenas putos ingénuos

O bairro era o nosso lar

E éramos fruto de um povo estrangeiro

Que imigrou para tentar sonhar

A escola mais perto era diferente de tudo que havia

No meu mundo, custava estudar

Não havia afeto, eles eram brutos, chamavam-nos rudes

Batiam e diziam que essa gente não se aplicava

Eu baldava, chumbava, não chorava

Porque eu já sentia raiva de uns betinhos

Que os pais mimavam, gozavam

Diziam escola é segunda casa, mais as dos diferentes era o zoo

Eu revoltei-me, bati num, cansei-me e deu boom

Só estava cheio, não era o meu fascínio

Suspenderam-me no quinto armaram um circo

Estavam com receio, disseram que eu era assassino


[Refrão]

Eu só me sentia bem no bairro, ali via um lar

Ninguém ligava língua e cor

E sempre que eu mudava de cenário voltava revoltado

Porque o que eu sentia não é amor


[Verso 2]

Perdi o respeito em casa

Duvidavam que eu era um bom miúdo

Foi uma fase complexa pra mim não passou de um absurdo

Ficava em casa de segunda a sexta sozinho do hood hum

E foi aí que conheci o mundo obscuro

Lidava com crianças como eu

Quando não és maduro

Qualquer motherfucker tu vês como um Deus

Esse bairro foi de oxigênio a ratoeira e fui réu

O que é que eu fiz para merecer tal prémio

Se os processos são troféus

Se eu não tivesse batido num, não seria suspenso no ciclo

Concluía o liceu, investia em outros currículos

O meu destino quem escreveu deu uma missão para pitbulls

E hoje quem seria eu se pulasse esse capítulo

Estou curioso, na verdade, não aprendi nada do lado perigoso

Porque a vida me deu réguadas ainda moço

Perdi brothers, nenhum safou-se

O que vivo hoje é milagroso

E a vida de boss, que a gente ambicionava fica longe


[Refrão]

Eu só me sentia bem no bairro, ali via um lar

Ninguém ligava língua e cor

E sempre que eu mudava de cenário voltava revoltado

Porque o que eu sentia não é amor


[Outro]

Nem tudo que brilha é ouro

Nem todo baú tem tesouro

Todo progresso vem com choro

E é do desconforto que bezerros se tornam touros