Released on March 24, 2023

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[Intro: Excerto do poema "Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada", de Alberto Caeiro]

Isto é talvez ridículo aos ouvidos

De quem por não saber o que é olhar para as coisas

Não compreende quem fala delas

Com o modo de falar que reparar para elas ensina


[Verso 1: Mundo Segundo]

Que o Sol se levante sem um triste semblante

O mal corto como um diamante, nunca relutante

E jamais cintilante de vaidade reluzente

Sinto a dor de um caminhante sobre cinza incandescente

(Enquanto) O ódio propaga nas ruas onde o pecado mora

(No peito) A saudade aperta como a dor de quem partiu para fora

(E) O sofrimento é similar ao de uma mãe que chora

(Quando) Ora por um filho que parte fora da sua hora

Nunca cabisbaixo nestes versos que encaixo

Jamais me rebaixo, facho leva ordem de despacho

(Sou) Resiliente como o sol nascente, eu volto sempre

Mais um dia nesta luta de labuta permanente

Permaneço num endereço onde o amor não tem preço

Onde o apreço te acalma se tens a alma do avesso

Recebo o dobro do que ofereço, o que ofereço é genuíno

É o destino de um peregrino até o badalar do sino


[Verso 2: Bezegol]

Tem calma, querem mais um discípulo, não lhes dou capítulo

Sou mais baixo que um peão neste xadrez político

Desperto nesta situação, eu ando sempre aflito

Pois qualquer falta de atenção o resultado é crítico

Tenho de manter a cabeça fria, lutar mais um dia

Dar um conforto à Maria, apoio à minha cria

Levantar, cair, faz parte da minha sina

Continuar e persistir faz parte da minha rima


[Refrão: Bezegol]

Eu queria comprar um bocado do tempo

Só para voltar atrás, desviar o lamento

Mudar o argumento deste conto Bafiento

Eu queria comprar um bocado do tempo


[Verso 3: Bezegol]

Neste jogo sou só mais um player que se fez à vida

Tentar soldar as contas com rimas numa batida

Não veio fácil, mas foi uma rota definida

Não havia GPS, então foi à deriva

Sempre com fumo no meu peito, humildade e respeito

Quando o trabalho é ganho, o trabalho é para ser bem feito

Representando o que ficou atrás de mim

Levo arrependimentos pois a vida é mesmo assim

Podia desviar mas não sabia de antemão

O conforto que seria não resistir à tentação

Mas não, preferi sentir o sabor da verdade

E agora vivo entre a loucura e a sanidade


[Verso 4: Mundo Segundo]

Eu jamais demagogo, sou mais pedagogo

O meu velho é como novo, tenho estima pelo jogo

Estamos inconformados e a postos nos postos

A puxar ferro com o peso dos impostos que nos são impostos

Estamos a contar trocos e não a contar gostos

Ricos que roubam pobres, não há Robin dos bosques

Estamos a gastar cobres, estamos a gastar votos

Tanta areia para os olhos, o povo é que sofre

Vistos como piratas, vimos pilhar o tesouro

Antes que os magnatas venham arrancar o couro

Eu nasci num berço d'ouro, só colchão de palha

E não conheço o fio d'ouro, só o da navalha

Não arquiteto, mas com mais um projeto na calha

Homem maduro e adulto não se dá com canalha

Não há Deus que valha quando é o sistema que falha

Estamos rodeados por escumalha


[Refrão: Bezegol]

Eu queria comprar um bocado do tempo

Só para voltar atrás, desviar o lamento

Mudar o argumento deste conto Bafiento

Eu queria comprar um bocado do tempo!

Eu queria comprar um bocado do tempo

Só para voltar atrás, desviar o lamento

Mudar o argumento deste conto Bafiento

Eu queria comprar um bocado do tempo!


[Outro: Bezegol]

Quebrar este sentimento de ir num barco à vela sem vento

Dobrar o cabo do tormento, sair deste modo cinzento

Mudar todo o andamento deste governo nojento

Não importa quem tá lá dentro todos no conto bafiento

Eu queria comprar, queria queria só para voltar atrás

Só para voltar atrás, mudar o argumento

(Deste conto Bafiento) Eu queria comprar um bocado do tempo