Released on October 14, 2020

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[Letra de "Dr.?"]


[Verso 1]

Alguém me arranja um médico?

Não se brinca com a saude mas rir é o melhor remédio

A morrer de tédio arrasto corpo para borda dum prédio

Quero golfa-lo na pedra todo torto e falo sério

Mas o que é dito é que isto pode ser o édipo

E eu nem vou estar cá para contar o meu óbito

O hábito é trágico: abraço o medo e escrevo imenso

Intenso, amasso, gravo, apago e por fim endoideço

Assim eu penso. Já não sei se vou durar

Amor, eu vejo a dor e pior, estou adorar

Estou a aderir e à deriva como um louco

Outro copo e entretanto tonto entorno tanto tinto, sabе a pouco

Fica com o troco, estou habituado ao nada

A arte é dada mas credo porquе é que só assim s’agrada

Não me agrego a isto, óbvio que estou mal

A explicar que dominante não é sinónimo de normal

Alguém me disse que sonhos não morrem

Mas passou o tempo e fiquei sem nenhum

O meu pai disse que as minorias sofrem

Mas ele não sabe o que eu passei quando tentei ser comum

É um certo que um dia lhe vou dar razão

Mas até la padeço mais um pouco

Mais um grito, mais sufoco, mais um beat, vai estou rouco

Mais um verso e abandono sa’foda acabou o pro bono

Sonho parvo e eu no quarto deitado sem sono

Farto queixo me da dor, cala-me tons

Estraguei sons por amor e amor por sons

Até ficaram bons pra mim, tenho umas quantas rimas extintas

Rap é gastar canetas para ouvintes estarem nas tintas

Às tantas penso quem sou ou o que faço aqui

Respostas estão neste som ou vou escrever outro a seguir?

E se eu não conseguir voltar ao antigamente

Alguém me diga mesmo que esta dor se apaga com um medicamento


[Bridge]

Recordações só aproximam o passado

Preso ao tempo e o karma quer que eu pague caro


[Verso 2]

Sentado e sem incentivo, supor foi o que sempre estive

A fazer para que o verso tenha dor ou seja extensivo

Crise existencial vive, um sortudo do sortido

A escrever sobre amor sem nunca o ter sentido

Ainda achas que sei tudo? Até génios tremem falas

Mas eu vi que há alma gémeas e há gémeas falsas

Lá na casa eu fui quem vestiu as calças

Tu baixas-te as tuas a outros e ainda fizeste ameaças?!

Eu dormi tanto nessas bocas podres, oh pah foda-se

Se eu pagar por elas eu vou comprar todas

Só para escrever o som chamado “Ajustar contas”

Gastar tudo, sobra um tusto. Às tantas estou maluco a dar milho pombas

Dei pérolas a porcos não comeram

Prometeram-me um futuro e não me deram

Por isso não me digam que se acreditar, existe

Todos te querem ver bem mas quantos fazem por isso?

O meu ex disse “hoje bora jantar”

Para perceber que depois de mim ele já fodeu, como não adorar?

Soma e segue, sumo cego sempre a mesma saga

Preencher vazio com vazio dos outros sempre a mesma foda

Vários corpos, tantos copos e a companhia?

Na sala roda-se weed, branca, g, keta, tina

Quem atina neste globo também vai sangrando

O teu dia corre bem? No meu vai-se andando

Com enganos conto quantos é que estão perto

Porque eles só amam o teu som até pagarem para concerto

Sem a guest não vão mas querem foto contigo

E se tu cheirares sucesso eles estavam lá no início

Acaba o panegírico, baixa o pano e giro o cu

Para cama onde construí os pesadelos deste mundo

Dá-me vinho e como o xtinto, bebo tudo desde que o

Efeito bata e que me arraste até ao fundo, só mais um minuto