Prólogo

By E.se

On Serotonina

Released on March 10, 2021

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[Verso]

A conta gotas

Eu conto as gotas que restam no meu copo

Já o vi mais cheio, vejo o mais vazio

Sem sequer ter extravasado um pouco

Tiro a medida e anoto, vejo o igual mas ignoro

Esculpido para um plano alto esconso perdido pelo planalto

Contei menos subidas embora admita

Que são as descidas que tem este vale

O que aconteceu a energia que entrevia no meio deste peito alvo

Quando o pensamento me aquecia ardia е me deixava a salvo

E é essе pensamento

Que como um cravo me atravessa e eu encravo

Acorrentado a esta ideia

De estar e em que a cadeia

É a minha mente que em cadeia, encandeia

Queima e despopula a minha aldeia

Déspota em mim, disputa o meu tempo

Que eu vejo passar tão lento

Cronometro-o e é um lamento

E eu recuso viver por sustento

Em suspenso gravitam axónios

Atropelam-se em mim, esgotados neurónios

A trote ultrapassam-me os meus demónios

Sussurram para mim em tons babilónicos

Dias for um fio, finam insónicos

Insinuam desafios ao meu amor próprio

Inerte desafino no meio do ócio

Não tolero o frio e rezo pelo bócio

Finjo que rio e digo estar ótimo

Camalio-me ao escrutínio ótico

Visto as cores num fundo exótico

Vivo as dores no meu mundo gótico

Renasço barroco, meu cérebro está rouco

Laxo em certezas eu creio-me louco

Nado e afogo num mar de tristezas

Tento agarrar-me mas é só incerteza

Afundo em hipóteses sem qualquer destreza

E.se eu vou nesta correnteza?

E.se o meu corpo congela com esta frieza

E eu não vejo a luz do farol acesa?

Perco o remo e afundo com o demo

Desiludo o meu pai e o deixo incrédulo?

E.se não uso este potencial génio

Que agora só me parece efémero

E.se não cumpro o destino talhado

Nunca aprendi a sair derrotado

Faço estas linhas e o resultado

Ganho balanço neste mar quebrado

Prescindo de um leito na margem abrigado

Flutuo no caos deste mar ondulado

Fico à tona mesmo que agitado

Não quero a cura, muito obrigado

Aceito a doença é o meu legado

Baptizo-me

E.se

E saio renovado

Recorro às fraquezas na tempestade

E começo a sentir o medo conquistado