Meritocracia

By E.se

On Serotonina

Released on March 10, 2021

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[Intro]

Bela palavra ser meritocrata

Mas a memória é parca, se a conta está paga

Se a casa tem água, se nunca a banhou mágoa

Se nunca houve a falta da geração passada


[Verso 1]

Meritocrata deixa-me contar-te a história da Lourdes

Cabo-verdiana da Praia, rodeada de muros

Dois filhos ao colo foi-se a juventude

Sem abonos de parentes nunca teve esse escudo

Obrigada a emigrar à procura de frutos

Portugal foi o destino, deixou os miúdos

Um só com dois anos, outro mais graúdo

E o sonho no fundo era dar-lhes mais estudos

Aquilo que não teve quis dar mais

Quebrar as correntes geracionais

Fugir dessa herança dos ancestrais

A maldição de crescer sem os seus pais

E logo percebeu não bastava um trabalho

Pagar renda e comer, metade do ganho

Sobrava, juntava era para Santiago

E rezar para que não desaparecesse no barco


[Refrão]

Tu falas em mérito, tu falas em mérito

De onde veio esse crédito, soube bem esse tecto?

Tu falas em mérito, tu falas em mérito

De onde veio esse crédito, soube bem esse tecto?


[Verso 2]

Tens mérito, céptico, tens estudo académicos

Estatutos superiores com valores pouco éticos

Aprecias os louvores num trajecto aritmético

Mas fechas as persianas num efeito anestésico

Ao decrépito, meio social que te rodeia

Mas o único social que te comove é essa cadeia

Em que subiste a pulso, foi avulso, não à boleia

Os pais deram os estudos só usaste o pé de meia

E por isso, mereces tudo isso que tens no sítio

O outro até dá pena mas que não seja omisso

Com braços com pernas não há que ser submisso

Lutaste pelo que é teu, não há esmola para preguiço

Se quiseres até te explica como faz

Só trabalha até às 5 porque ele é eficaz

Mas se precisasse era o primeiro ele é mordaz

Só ele sabe os sacrifícios para chegar a capataz

Acredita, no espírito de ajuda e na missão

Só não te dá o peixe porque queres que aprendas a lição

Para seres como ele suficiente na gestão

E não sofreres com insónia quando te deitas no colchão

A receita, é esta e se a segues não engana

Trabalhas sete dias, os sete dias da semana?

Já estás a criar os problemas e o drama?

Desculpa está na hora de fechar a persiana


[Refrão]

Tu falas em mérito, tu falas em mérito

De onde veio esse crédito, soube bem esse tecto?

Tu falas em mérito, tu falas em mérito

De onde veio esse crédito, soube bem esse tecto?


[Verso 3]

Do lado errado da janela

Lourdes via um filme que não deixavam ser o dela

Não dão créditos aquela que limpa a tela

Que lava os pincéis que usas nessa aguarela

E a água dela?

Acredita que não é só ser mais funda

Ela nada naquela que para ti é muito turva

Chega a casa isolada numa agonia muda

Esconde as lágrimas enquanto as tuas ela enxuga

Foi assim que a conheci

"procuro outro encaixe até o dia ter um fim

Levanto-me pelas seis um turno é até às 5

Saio para o seguinte, em casa nem o corpo sinto"

Quando ouvi tudo isto me batia

A força e a jornada que esta mulher continha

O sonho de trazer consigo a sua família

Barrada por um SEF que a dizia clandestina

Mas as facturas essas eram recebidas

Segurança social inclinada e egoísta

Apoio ao emigrante com uma veia machista

Toques para jantar mas esqueciam da entrevista

E era isto que me ardia cá no peito

Quando ouvia à volta os méritos que tinham feito

Que mereciam os louros e preceito

E lá a Lourdes desgastada no seu leito


[Refrão]

Tu falas em mérito, tu falas em mérito

De onde veio esse crédito, soube bem esse tecto?

Tu falas em mérito, tu falas em mérito

De onde veio esse crédito, soube bem esse tecto?