Released on March 10, 2021

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[Verso 1]

Pesada é a cabeça e ainda leva a coroa

Rei do fracasso e sou o primeiro que não perdoa

Preso à pressão que ponho dentro e se amontoa

Refém da expectativa que me espreme e sempre ecoa

Ser a melhor versão da melhor pessoa

Estar ao leme e no embate não largar a proa

Na minha cabeça a missão que ressoa

Lentamente cagar na boa vida e a vida é boa

São gritos de um louco lá do topo da redoma

E à minha volta eu sei que ninguém pede isso

Mas inconscientemente acham que é o devido

Duvido até que já se tenham apercebido

Bran, aceito o pedido

E com isso tudo é tranquilo e já eu lido

Parece natural e isso é o mais difícil

Não escolhi a rota e vou guiado como um missil

Rumo ao infinito nas paredes serei stencil

Na pira acendam-me com o meu bloco e o meu pencil

Queimo as ideias subo mais leve, mais fácil

Mas para já não é tempo para luto

Fatos negros no roupeiro que eu luto

Cisnes negros puxo para mim são o meu grupo

Na capela flutuam e eu ensino o culto

A diferença é bela não a tomem como insulto

Pintem numa tela e exibam-na ao mundo

É bem mais único esse vosso submundo

Do que expõem os falsos pioneiros

Primeiros que te empurram para segundo

Só te empurram para segundo se deixares

Constróis a tua sorte se ignorares os azares

Ases tenho e abro o meu jogo

Canto por ti e para ti até ficar rouco

Tísico para ti, para os outros fico mouco

Metafísico, meto o físico na mente e no corpo

Louco, bato, gancho a gancho

Soco a soco abato o rancho que te circula e dá sufuco

Desmancho, D. Sancho afasto sempre esses mouros

Arranjo para ti e para os teus serão vindouros

Constranjo quem acha desporto espetar touros

Esbanjo, a cura pago-a com os meus louros

Sistemas venosos preparo todos esses soros

Dias invernosos empresto casacos e couros

Não tenho frio, se a ti te faço bem

Congelo-me a mim se a chama te convém

Pele de galinha mas sem medo de ninguém

Não paro na jornada daqui até ao além


[bridge]

Não paro, encaro, reparo

Não páro, não paro não

Tiro de mim para os outros

Vivo de mim e de mim para os outros


[Verso 2]

Queres que repare mas tu partes

Napoleão sou Mira não sou Bonaparte

Não me preocupo onde ponho o meu estandarte

Ponho-te a mesa e para ti é à la carte

Descarte, talvez um pouco à frente do meu tempo

Filosofo por desporto não é o meu sustento

Lamento quem não leva com este sol na vida

Cresce um rebento, cego, leigo na subida

Só ganhas coragem entornado na bebida

Em torno tem vida aproveita esse espectáculo

Agarro-te a ele uso só mais um tentáculo

Passo-te o know how ensino-te o vernáculo

Mostro-te o futuro chama-me oráculo

Blue pill, red pill

Desvinculo o obstáculo

Neo e Morpheus sou o escolhido o pináculo

Prometheus roubei a chama era crepúsculo

Zeus perdoou-me e da humanidade sou opérculo

Opero em cirurgias mais complexas do que quero

Mas não vacilo, vi o silo bem guardado

Arrombei a porta só para alimentar o gado

Encho o papo, saque guardo

Carrego com o teu fardo

Arde saro, queda amparo

No voo de Ícaro

Gatopardo, sou leopardo

Vou mais rápido do chita

Fujam as gazelas o mais fraco não me excita

Não é essa ganância que me aquece a barriga

Não é essa conquista que me acorda e me motiva

Ser melhor é o que me cativa

Estás lá em cima com a face bem altiva

A alma apodrece porque está supurativa

Deixa-me ir a tempo de uma abordagem curativa

Salvar-te desse marasmo de forma combativa

Mostrar-te que existe sempre uma alterantiva

Curo-te com a magia da língua nativa

Português suave que não toxifica

Inala as palavras e a alma pacifica

Aquecem-te por dentro e a mente dignifica

O propósito é digno e a estrutura solidifica