Poço

By Enigmacru

Released on May 20, 2019

Thumbnail

[Verso 1]

Eu até vos dei vozes

Criei-vos a todos

Uns em cima dos outros

De cabelo ao pescoço, até vos dei nomes

Na altura eu não soube

O quanto é perigoso

Arrepios no corpo ao menos 'tou preso no poço com eles

São tudo o que eu ouço há meses

Sem contar com as vezes

Em que eu peço silêncio ou socorro

'Tou de mãos a abanar ao tempo

A impedir o meu afogamento

Que se fodam os dramas e os salvamentos

Das vozes, fantasmas e os julgamentos

Só há água no corpo na minha mente

Espero que isso me ajude minimamente

Eu já tentei quase tudo

É a milésima vez que eu flutuo

Entalo-me e a água que engulo mantém-me vivo

Para eu repetir tudo

Nem sei se imagino as pessoas

Ou se já tenho os olhos habituados ao escuro

Deixei que a água me cobrisse o rosto

Fechei os olhos e insisti de novo

Nadei o mais que consegui p'ra baixo

Acho que nunca tinha ido assim tão longe

Foi o mais que pude, o meu maior esforço

Eu movia o mesmo

Já mexendo o dobro quase sem ar ou restava pouco

Todos calados à espera que eu o poupe

Apesar de eu jurar que não volto

Prefiro 'tar morto a fingir que não sofro

Quando eu puxar ar acabou-se

Eu vi o teu corpo entrar pouco a pouco

Num negro quase amargoroso

Contigo naquela água doce tão frio como aquele foço

Inspiro o ar dobro o pescoço, abri os olhos no escuro e vi-te Distingui-te cada vez mais turvo e nisto hesito

E tu nadas mais fundo segui-te e perdi-te no meio dos vulltos

Eu juro nunca te menti

Encontro por fim o teu contorno

Aos poucos entendi o teu sufoco

Há muito que eu tinha perdido o fôlego

Até sentir agua cobrir me o estômago

Abrir os canais com caminho aos brônquios

Eu vou cuspir bolhas e abrir os olhos

Distinguir em todos os meus contornos

Definem as coisas como eu não posso

Refletem-me em queda mas soem enquanto eu desço

Há correntes em torno dos membros não sou eu que os mexo

Há vozes que eu ouço a sair do pescoço

Que não vieram de dentro, se não como é que eu as entendo?

Há uma maior do que o resto em redor

Que ainda é mais convincente, não sou eu que invento

Talvez tenha sido mais do que eu consigo

Parei um momento procurei um consenso

Já começo a pensar em voltar o oxigénio não dura p'ra sempre 'Tou a ficar sem tempo

Nadava até onde me pudesses ver

E a água levou me sem o saber e mostrou-me o caminho

Que tinhas percorrido

Vi bolhas subirem com o teu reflexo

E outras surgirem do lado inverso

Já nem sabia onde é que estava ao certo

Sentia somente que estavas perto

Só queria que visses que eu existia

Nem sei se me viste com a euforia

Abanavas os braços e insistias

Inspiravas os tragos e expelias

Agitavas a água e eu não te via

Momentos depois já não reagias

Eu tenho de voltar p'ra cima

Os teus olhos d'um vermelho vivo num rosto sem vida

Agarrei-me nas pedras, puxei-me

Mas elas não queriam diziam-me "fica"

Eu ouvi-as a todas e vias mexer as partículas

Eu olhei as fissuras toquei nas roturas

Pareciam sentir-me foi tudo tal como dizias

Haviam algumas partidas vertiam gotículas

As pingas criavam películas seguiam por fendas e formavam siglas E separavam nomes com vírgulas

Eram camadas de gostas contínuas meras palavras

Eu ouço-as, sigo-as

Eu vi o teu nome a ser preenchido e fugi daquele sítio

Movi-me num movimento impulsivo convertido num ciclo

Subi um pouco mais

Eram tantos canais, eu não consigo

Só havia eu e o meu caminho

O líquido em volta e o ar que expiro

Ele foi lentamente mas é finito

Senti-me quase a perder os sentidos

Lutei contra a força do meu instinto

Inspiro e....