Eu

By Djonga

On NU

Released on March 13, 2021

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[Letra de "Eu"]


[Intro: William Bonner, Bial, Leonardo Méqui & Carol Nogueira]

"Com uma obra voltada pro antirracismo, o rapper mineiro Djonga é o único representante brasileiro num prêmio internacional de hip-hop"

"Conteúdo alienante que entorpece a psique dos jovens das periferias com uma falsa sensação de representatividade"

"Balançou o bagulho, bagulho aí entendido como os velhos cercadinhos socioculturais que perderam o sentido, preconceitos caídos de podre"

"Porque se eu fa... falasse "um negro criminoso", eu seria racista, então exatamente foi o que eu quis colocar. Tentei colocar que um lado desse jeito seria racista"

"Um cantor de rap fez um show pra milhares de pessoas nesse fim de semana. As cenas de aglomeração chamaram atenção nas redes sociais"


[Verso 1]

'Tô numa casa grande cercado de amigos

Amigos? Só 'tô numa casa grande

Narrei seu mundo igual Galvão, me amaram pique Silvio Luiz, ó

Vou terminar igual Casagrande

Cuidei de todo mundo e esqueci de mim

A rua quis fuder comigo, ela era minha amante

Menino, olha o que fizeram com Luther King

Quem caça Simonal, caça Bob e caça Gandhi

De passar batido, primo, eu sempre passei longe

Fui passar passando pelos cana' e parei onde

Fede mijo e sangue, ainda bem que foi só uma noite

Admiro os cria' que tiraram mais de onze ano'

Desgraçado tirou o resto da minha inocência

Eu nem vi passando e acabou minha adolescência

O que é seu, é seu, inclusive suas conta'

Acerta com Jesus, que injustiça é consequência

Antes de ser eu, eu sempre quis ser nós

Agora só quero ser nós sem deixar de ser eu

Entendi a diferença entre o líder e o boss

É que um brilha se tu for luz, o outro brilha se tu for breu


[Refrão]

Humano demais pra ser tão bom pra você

Humano demais pra não acertar e assumir

Humano demais, esse é seu ídolo

Humano demais pra não aprender com isso aqui

Sou tão só, tão eu

Sou tão só, tão eu, é

Tão eu


[Verso 2]

A vingança é aquele prato que 'cê come frio

Na vitória são vários pratos e uma mesa cheia

A derrota é um prato raso e eu comendo sozinho

'Tô tipo Jonas perdido no bucho da baleia

Eles te fazem Messias, mas preferem Barrabás

E diferente de Pilatos, não lavo minhas mãos

Fiz a multiplicação do peixe no bolso

É o peixe no bolso que ajuda a multiplicar o pão

Antes era pouco sapato, hoje até gente tem no meu pé

É o que justifica o cheiro do chulé

Confiei demais, só depois vi que

Nem todo bicho de goiaba, goiaba é

Desde criança querem meu CPF no lixo

Tentou me cancelar, chegou atrasado

Uns dia' pra trás, olhei no fundo do olho da morte

Sem entrar em detalhes, sorte que eu ando armado

O espinho vem pra te mostrar que nem tudo são flores

Coisas que me disseram numa esquina dessas

Se orienta, moleque, às vezes passa batido

Mas a vida não é um teatro e nem tudo é as peça'

Fácil lidar com o barulho que faz os convidado'

Foda é lidar com o silêncio que vem no fim da festa

E é o silêncio que me diz que apesar do sucesso

Eu sigo com a corda no pescoço e com a mira na testa


[Refrão]

Humano demais pra ser tão bom pra você

Humano demais pra não acertar e assumir

Humano demais, esse é seu ídolo

Humano demais pra não aprender com isso aqui

Sou tão só, tão eu

Sou tão só, tão eu, é

Tão eu


[Ponte]

"Ganhei o mundo quando perdi a mim mesmo

Perdi o jovem eu, perdi aquele cara cheio de tesão, bem louco e aventureiro

Quer dizer, continuo maluco, mas só maluco"


[Verso 3]

Sumi das rede', o pai nunca 'teve tão on

Deitei na rede, olhei pro céu e agradeci

Na boca do povo 'cê se acha o bala

Mas foi no olhar da' minhas criança' onde eu me reconheci

É, mais de cem mil nos trend' do Twitter

Na rua ninguém, não vou levar vocês a sério

Se o assunto é hipocrisia, nós tamo' empatado

O foda é que o desempate eu já sei o critério

O tamanho da minha ambição 'cê não mede o quanto

Eu 'tive meditando e juro que não mede pouco

Às vezes penso em deixar essas fita' mei' de canto

Bem antes que eu me acabe mei' frustrado e mei' que louco

Já fui camisa nove, hoje eu faço o meio de campo

Pros manin' que 'tá no ataque não tomar nem mei' pipoco

Quiser caô comigo, cagão, então vem quicando

Sou preto no Brasil, qualquer mal pra mim é pouco

Ganhei tanto dinheiro que vi que o problema não é o dinheiro

É justamente a busca por dinheiro

Meu Deus, me perdoe e deixe entrar no Céu

No buraco da agulha eu quero ser o camelo


[Saída]

"Eu acho que tem pessoas que já foram de baixo talvez de outras encarnações e que nessa já estão num patamar superior, mas não é meu caso, entende?

Eu não, eu chafurdei na lama mesmo, entendeu?

Eu sou o que há

Não é humildade dizer isso, não, que quem conhece e sabe de mim sou eu

Eu sei o quanto eu sou sujo, mesquinho, avarento, invejoso, irado, desconfiado e qualquer coisa a mais que 'cê possa botar; covarde, entendeu? Mentiroso...

Eu conheço, acontece que eu não gosto"