Released on March 4, 2024

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[Verso]

Já não sei o que é real

Só tento é ser real por entre gente virtual

Não ser só um serial number, escravo dum um serial killer

Dirigente que aniquila, passa a gente a caterpillar

Mata gente com o seu cão de fila, ou mata a gente sem pão na fila

E a cada decisão que toma, soma cadáveres em fila

Sociedade em estado de coma que come a Terra quе a asila

E agente cochila, faz a mochila, vai p'ó festival е chilla

E agente refila, canta Abril, ou posa na rede social e cintila

A gente vacila, mede a pila, vai no Call of Duty e fuzila

A gente refila, põe a máscara, distanciamento social e desfila

Puseram-me um açaime, mandaram-me circular pela direita

E olhar p'ra toda a gente como se tivessem cometido um crime

Puseram um açaime e mandaram-me ir p'ra casa

Olhar pela janela ou pela Amazon Prime

Fábrica da mentira que debita

Merda em tudo aquilo que edita

Nesta dita informação que dita opinião

E grita ao cidadão até que ele acredita

E não põe em causa a exploração

À volta da qual isto tudo gravita

'Tá tudo às compras a comer pizza ou sushi

A ver séries sobre os bons e maus da fita

O mundo não parou, só porque somos menos

Na Baixa, no Colombo, Footlocker ou Dolce Vita

'Tá tudo online, 'tá tudo live, 'tá tudo em direto

A gerar dados na sociedade da vigilância

'Tá tudo mais perto do transhumano

Mantendo o seu próprio mano à distância

Vira o disco e toca o me'mo, muda a cue e toca o me'mo

Breaking news e toca o me'mo, faking news e toca o me'mo

Hit do instante, bait do instante

Hit do instante, hate do instante

A lógica é irrelevante, o que prevalece é o instante

A verdade é irrelevante se ela muda a cada instante

Com a repetição de eventos mascarados de novidade

Para que esqueçamos a exploração, essa sim, constante

E o descontentamento é tão macho, tão viril, tão possante

Mas a pila murcha quando o alemão bate um montante

Abanamos o rabo p'ra cima e depois ladramos p'ra baixo

Contra uma mulher no trabalho ou um indiano ao volante

Brancos contra pretos, pretos contra ciganos

Ciganos conta indianos, indianos contra os seus manos

Porque são muçulmanos

Mas nisto tudo somos pobres de todo o mundo

E todos os pobres vão sofrer danos

Mas é mais fácil cair no engodo

De culpar quem chegou depois, pelo país 'tar no lodo

Mas quando vier essa limpeza, toda a gente vai levar com o rodo

E se hoje é o cigano, amanhã será o preto

Depois será o zuka, mas também chegará ao tuga

Porque eles vão limpar o refugo todo

Quando o povo perde a tesão, nacionalismo faz de Viagra

Quando o povo lava as mãos, algum fascismo se deflagra

P'ra matar em nosso nome quem nos ameaça e amedronta

Fabrica-se o bicho-papão a cada noticiário faz-de-conta

A ignorância só e uma bênção para quem quer um povo burro

E quem quer um povo burro, é porque lhes vai tratar a murro

Alimentam-se as polémicas porque queremos cheiro a esturro

Para depois irmos votar em quem consegue o maior zurro

Contra um gajo com turbante, com um cartaz conturbante

Ou por esta paz perturbante feita com bombas

Drones, ou um gás perturbante

Lançado sob quem já não aguenta a mentira e os cânones

Desta casta arrogante, desta casta mutante

Tudo em loop, tudo em loop, esta pasta agonizante

Que a gente mastiga e já nem nos dá voltas à barriga

E nunca basta o abundante

Gasta, gasta, que alguém traz o embrulho à porta

E para abrir o mar aos navios, os mísseis são disparados a montante

Gasta, gasta enquanto o planeta arde ou se afunda entretanto

Gasta, gasta até que não sobre uma abelha, uma tartaruga ou um elefante

Gasta, gasta, mas agora fá-lo online, afasta-te, sê distante

Ou gasta gasta, mas agora gasta verde

Porque os efeitos dos cobalto só se sentem la no sul tão distante

Numa terra esburacada para poderes postar

O teu ativismo individualista a cada instante

Ou o ódio por alguém que supostamente te tirou o direito a um país

Quando os maiores benefícios foram p'ra um nómada

Que vive na tua casa antiga e mija na calçada branca que te orgulha tanto

Ou foram para um investidor francês que especula a tua casa antiga

E sobre esses, o teu vigor é periclitante