Released on October 26, 2018

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Porque choram os teus olhos, diz

Bernas, se eu soubesse, não tinha desligado a chamada

Ficaria à conversa contigo até de madrugada

Quinta-feira, nove da noite, liguei-te 'pa confirmar

"Segunda-feira, a tropa vai-se juntar p'ra jantar"

"Claro que sim, conta comigo", foi a tua frase

Passaste uns tempos em Londres, mas estás de volta à base

Correu tudo bem, adoraste 'tar com a Benny, a tua mana

Querias ir a estúdio comigo na próxima semana

Disseste-me que tinhas ido correr

E estavas todo encharcado porque estava a chover

Disseste-me que tinhas saudades da malta

E que adoras tatuar, mas a estrada já te faz falta

Sexta-feira, dia 15, eu, o Paulo e o André

Reunião à volta do choco, boy, comemos bué

Recebo uma chamada do Afonso, mas não pude atender

Mandei mensagem a dizer "Ligo assim que puder"

Ainda bem que não falei com o gajo do CM que me ligou

Porque era que me ia dizer aquilo que se passou

Mais um telefonema, desta vez foi o Cris

Está com pouca rede, não percebo nada do que diz

"Hã? O quê? O que é que aconteceu?

O quê? O QUÊ? Quem é que morreu?

Foda-se...

Foda-se, foda-se...

Foda-se

Foda-se

Foda-se, não acredito nisto, foda-se (foda-se)"

Porque choram os teus olhos, diz

"Afonso, por favor, diz-me que isto é mentira"

Mas ele confirma que o nosso irmão partira

Eu grito e choro, mas de nada adianta

Saio do carro desorientado, sinto um nó na garganta

Tenho que ir a Cascais

Bernas, quero ver os teus irmãos e ver os teus pais

Baía de Cascais, não chovia mas estava frio

Quando vi o Afonso foi quando a ficha caiu

"Leva-me, por favor, a abraçar a tua mamã"

Nessa noite, não consegui ir ver nem o teu pai nem a tua irmã

Mas quero que saibam o quanto eu amo o Bernas

Abracem-me com força, não sinto força nas pernas

"Sinto muito, lamento, é preciso ser forte"

Cada um com a sua sina, cada um com a sua sorte

Tantos anos de amizade, cumplicidade

Serás meu irmão p'ra toda a eternidade

Desde 2004, palcos foram centenas

Festas pequenas e grandes, Coliseus e arenas

Parei o carro na Parede, fui até à marginal

Fui até ao local do acidente fatal

Falei muito sozinho, mas acredito que me ouviste

Deixei uma marca minha no local onde partiste

Fiquei mais de uma hora sentado no passadiço

Quis desmarcar o jantar, não há cabeça para isso

Mas não era isso que tu querias

Ya

Não era isso que tu querias

Ya

Ya, ok, ok (falei com a tropa, ok, ya)

Porque choram os teus olhos, diz

Vamos manter o jantar como tu, de certeza, quererias

Deixar de parte melancolias, recordar alegrias

Sete e meia na Buraca, restaurante "O Ministro"

Primeira vez com a tropa junta depois do sinistro

O Paulo trouxe uma foto tua com a t-shirt da tropa

A mesma com que viajámos à África, América, Europa

Pusemos a foto virada p'ra nós e comemos a mangarra

Rimos com as tuas histórias, ninguém tocou na guitarra

Foi triste, intenso, fizemos bem em ter ido

Falámos de ti e do quanto tu és querido

Quem privou contigo sabe bem, sabe bem do que falo

Ya

Sabe bem do que falo

Ya

Porque choram os teus olhos, diz

Porque tens medo do mar?

Porque vives de ilusão

E é fria a tua mão

E dizes sempre "não"?

Quem privou contigo sabe bem do que falo

Ficarão boas memórias assim que passar o abalo

Dia 20, Alcabideche, lá na Agnus Dei

Fui-me abaixo e chorei, não aguentei quando entrei

Custa a acreditar, esta verdade dói tanto

Fazes falta a tanta gente, nem imaginas o quanto

Amavas tanto os teus primos como eles te amam a ti

Mandei o nosso som ao Dani, ao Dani

Ele disse-me que foste mais que um professor

E, por mais forte que seja a dor, é mais forte o amor

Fechado sozinho na sala da despedida

Pus a tocar no telefone o nosso som "É a Vida"

Ela continua, mas nunca mais será igual

As minhas rimas de nada servem e o meu choro de nada vale

Vi o teu corpo a partir, mas para mim estarás sempre cá

Pedi-te que dês força à família, e ao Tatá

Vestiste a camisola até ao fim, obrigado

Dei uma igual à tua mãe que eu, eu tinha levado

Já pedi ao teu pai a cachupada

Um ótimo pretexto 'pa contar-lhe histórias da estrada

Sempre me disseste que ele era ótimo cozinheiro

"Que tal um jantar, dia 28 de janeiro?"

Sabes, a Rita contou-me que a noite foi espetacular

Estavas super feliz, passaram a noite a beijar

Conforta-me saber que foste feliz a vida toda

E é isso que interessa, o resto que se foda

Trabalhei contigo duas músicas 'po novo CD

Duas músicas 'po novo CD

Uma chama-se "Morreu", a outra "A Vida Continua"

Isto p'ra mim é uma mensagem que o destino insinua

É um privilégio, uma honra é o que eu sinto

Bernardo Manuel Freitas Cortês Pinto

Obrigado

Porque choram os teus olhos, diz

Porque tens medo do mar?

Porque vives de ilusão

E é fria a tua mão

E dizes sempre "não"?

O que foi que o mar levou de ti?

Com que ondas te enganou?

Que esperança te roubou a angústia...