[Verso]

Neste lugar vou desenterrar um monstro de mágoa

Magoa, mas faço a genuflexão mais árdua

À toa, de joelhos nesta terra, guerra aos céus

Porque murcham as orquídeas nesta jarra?

Desta mármore, devia nascer uma árvore

Raiz de quem se foi porque há uma porta que se abre

E esta foto não é nada

Não há diálogo com ela, nela só vejo saudade

Tem chovido e esta lama não perdoa

Tudo isto destoa com a tua pessoa

Nada do que diga soa melhor que o silêncio que atordoa

E nada boa seria a resposta se viesse

Faltas-nos tu na proa, sabes?

Mundivisões distintas, mas o exemplo davas

Funcionava melhor que estas minhas palavras

Que a nortada vai espalhar à sorte, ao redor dessas campas

Moradas finais de tanto indivíduo

Tanta escolha, tanto karma, tantos encerrar de ciclo

Só dá gente em cacos, parecemos vidro

Por estranho que pareça, é aos vivos que me refiro

Todos secos como ramos

Que trocamos por outros com igual destino

E não é porque não regamos

É porque o sal que nós carpimos só dá vida nos oceanos

Cava sulcos nestas faces, cicatrizes, todos cristo

Cancerígenos, remorsos, chicotadas e desisto

Mas vivemos uma existência a fingir

Se for verdade que só na morte encontramos o paraíso

Contrasta com o que sinto, como sempre

Mas aqui, a minha dor é semelhante

Sofremos em coro, virados para dentro

Mas a ausência de alguém aproxima-nos num todo

Sem dúvida, esta é a mais cabal certeza

Seremos um dia o espaço que não há quem preencha

Filosofia p'ra fugir à tristeza

Que paira na aura das sombras vestidas com roupa preta


[Refrão]

Somos todos diferentes ou somos todos iguais?

Somos todos diferentes ou somos todos iguais?

Queremos estar bem, mas temos saudades de alguém